As duas faces do Amor *Giselli Souza é nova jornalista do Psyte e não perde um show do Chemical Brothers por nada nesse mundo.
A chegada da música eletrônica às massas trouxe consigo não só a evolução da cena – boa para uns, odiada por outros - mas também a popularização do novo combustível da noite: o ecstasy.Com um cenário totalmente a favor, como lugares e músicas alucinantes, distantes dos centros urbanos e livre das paredes dos clubs, as raves são palco de fantasias, onde a ordem é enfiar o pé na jaca e curtir, curtir até o sol nascer, até o próximo set, até aquele DJ que todo mundo diz que é “tudooo”, mesmo que o relógio indique 5 da tarde de domingo. Neste embalo surgiram os primeiros chill-outs *, em meados dos anos 80, em Londres. O motivo era o mais lógico possível: relaxar e esperar passar o finalzinho do efeito das drogas (o chamado comedown). Anos mais tarde, mais precisamente em 1992, o DJ e produtor Alex S. contribui para a organização da primeira rave no Brasil, que contou com nomes de peso como Moby(lembrando que há quem diga que esta informação não é verdadeira).Comparada a cena punk/rock dos anos 70 e 80,onde a cocaína tinha tudo a ver com pancadaria, a cena eletrônica tem uma cara mais saudável e alegre de ser. Garrafinhas de água voando e desfile de óculos escuros escondem os rostos da nova geração que desembolsa até R$ 50,00 por uma “pastilha”, em troca de umas horas de alegria e prazer. Segundo dados recentes da ONU (Organização das Nações Unidas) o consumo de ecstasy cresceu 70% entre 1995 e 2001 no mundo inteiro, coincidentemente o período de explosão das raves. Os resultados ainda não são tão catastróficos, uma vez que tudo ainda é muito recente. Porém, há quem afirme que a viagem não é só alegria.N. de 24 anos frequenta a cena eletrônica há três. Durante a adolescência, N. afirma ter experimentado algumas drogas e não ter gostado de nenhuma: “O pessoal que eu andava já fumava maconha e um dia eu resolvi experimentar. Não gostei e continuei só na bebida, que desde muito cedo sempre curti.“ O tempo passou e um dia N. foi apresentada ao ecstasy: “Foi paixão à primeira vista. Nunca tive coragem de cheirar cocaína pois tinha aflição de imaginar algo entrando pelo meu nariz. Porém, no final já estava moendo as pastilhas e cheirando para ver se dava mais efeito. Isso sem falar no álcool que eu passei a consumir cada vez mais...“. Sempre embalada ao som de Chris Liberator e frequentadora assídua das festas de techno, N. começou a perceber que a "balinha" estava aos poucos destruindo a sua vida: “Minha vida girava em torno dos finais de semana que eu ia nas raves. Todos os meus amigos usavam e continuavam a tocar a vida. Eu, no entanto, comecei a ficar depressiva e negligente no meu trabalho. No dia seguinte, quando eu acordava, tinha vontade de morrer. Nada parecia ter mais sentido.“Felizmente depois de uma tentativa de suicídio, N. encontrou saída em um grupo de Narcóticos Anônimos. Desde então, vem se mantendo sem drogas há 10 meses: “Era uma quarta-feira de cinzas, em pleno final do carnaval. Já tinha tentado inúmeras vezes parar e não conseguia sucesso. Foi então que eu procurei ajuda em uma sala de Narcóticos Anônimos e minha vida deu um salto. Por causa das drogas, perdi minha auto-estima. Hoje, em recuperação, percebo o quanto os meus sonhos, de ter uma família, ser uma boa profissional, estavam distantes. Era como eu vivesse em um mundo de ilusão e de repente ter acordado em um pesadelo.“N. no entanto, continua ouvindo eletrônico, só que em casa: “Resolvi dar um tempo nas raves, ainda mais que como estou desempregada, vivo sem grana. Mas não deixei de amar o eletrônico e no final do ano, quando completar 10 meses limpa, vou na SP Groove. Apesar de saber que vou ver muita gente usando droga, sei que eu não posso. Já perdi muito tempo da minha vida querendo ser aquilo que eu não sou. Hoje tenho a possibilidade de ser livre para ser eu mesma.“Pode parecer que não, mas N. teve muita sorte. Isso porque somente no ano passado, 72 pessoas morreram na Grã-Betanha* depois de tomar ecstasy. O motivo é a desidratação e hipertermia (grande aumento da temperatura do corpo). No Brasil, os dados ainda são pequenos e muito vulneráveis uma vez que grande parte dos usuários é de classe média-alta, o que acaba dificultando na divulgação das mortes.A polícia no entanto, está de olhos bem abertos em todo o mundo. Neste último verão em Ibiza foram proibidas as festas ao ar livre, sendo restritas novamente aos clubs. Em Florianópolis, o governo estadual decidiu proibir a realização de festas raves no ano passado. O motivo era a falta de segurança e o uso de drogas ilícitas. O dj e booker do club Ibiza, Fernando Bastiani, mais conhecido como "Ifi", afirma que apesar da proibiçao ter sido por uma boa causa, a medida causou um verdadeiro choque na cena eletrônica em Balneário Camburiú: “Na última grande festa antes da lei entrar, teve furto de carros (tanto que chegaram a roubar as rodas de um carro), arrastão e apreensão de uns 1000 unidades de ecstasy com dois rapazes que estavam indo pra festa. Eu achei certo o governo tomar uma atitude. O povo estava se jogando demais e rolavam várias privates sem a mínima estrutura. Até para fazer uma festa pequena era proibido. Na época as reportagens que saíam nos jornais eram que todos que vão em rave tomam ecstasy. A saída foi apostar nas festas indoor, nos clubs. A sorte é que deu certo e vários clubs que não tocavam eletrônico, aderiram à cena.“Segundo Ifi, a retomada mesmo se deu na metade deste ano com o anúncio de grandes núcleos voltando à região. Para ele, a conscientização da população, que passou a ver a cena de outra maneira (nao só como um antro), também ajudou. “Depois da proibição saiu uma matéria super completa na imprensa explicando os reais motivos do impasse. Eu particularmente acho que cada um é cada um. Eu prefiro tomar uma cerveja e ficar de boa. Acho que o grande lance é saber se você está indo para uma festa, porque gosta, para ver tal dj, ou se você tá indo por causa das drogas“, afirma Ifi.Outro dj bastante conhecido no sul, Sandro Moura, mais conhecido como Dj Sandrinho, completa: “O futuro da cena no sul é brilhante mas esse negócio de drogas é uma mancha negra que temos que frear. A polícia também está errada de proibir porque aí tudo que é proibido é mais gostoso. A sacada está em pegar os traficantes que vão às festas fazer o deles, destruindo vidas e a nossa cena.“Em São Paulo, na última parada AME, um adolescente de 19 anos morreu afogado no Parque do Ibirapuera. Como a própria sigla diz, “Os amigos da Música Eletrônica”, decidiram criar a campanha “Sem Noção”, que visa conscientizar os jovens do consumo abusivo de álcool em clubes e festas de São Paulo. Além disso, a organização já está procurando meios de discutir com autoridades de diferentes áreas a questão drogas X e-music.Com tudo isso, vale a pena refletir nos rumos que a música eletrônica vem dando ao longo dos anos, bem como no real significado das raves. Desta forma, talvez consigamos debater de forma séria ao invés de fechar os olhos não só para a problemática das drogas, como também para o futuro da cena. · Segundo dados da ONU, a Europa lidera no número de usuários de ecstasy. Somente na Grã-Betanha, dois milhões de ecstasys são consumidos semanalmente.· O ecstasy é conhecido mundialmente como a “pílula do amor”, devido as sensações de paz e alegria que causa nos usuários.
terça-feira, 25 de setembro de 2007
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Um comentário:
A droga acaba com a auto-estima da pessoa mesmo! E isso é nosso maior tesouro! Dessa forma acabamos caindo no fundo do poço... é viagem errada...
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